A ideia parecia sólida: trocar o C pelo K resolvia o problema. "Cavalo" já existia registrada na classe, então o pedido saiu como "Kavalo". Busca rápida no sistema do INPI pelo nome exato, nada encontrado. Sensação de terreno livre, marca registrada com essa grafia em nenhum lugar.
Meses depois, o indeferimento chegou citando "Cavalo" como anterioridade. O titular contestou: são grafias diferentes, nomes diferentes, como pode? Pode, porque o INPI não lê marca letra por letra. Ele avalia o que fica na cabeça de quem ouve, vê ou associa o nome, e "Kavalo" e "Cavalo" soam exatamente igual. Isso é colidência.
O que é colidência de marca
Colidência é quando duas marcas, mesmo com nomes, grafias ou logotipos diferentes, geram confusão para quem consome. O exame do INPI não compara caractere por caractere. Compara impressão de conjunto: o que a marca transmite quando pronunciada, vista ou interpretada, dentro do universo de produtos e serviços da mesma classe ou de classes afins. Um pedido pode ser graficamente distinto do registro anterior e ainda assim colidir, e é exatamente esse o ponto que passa despercebido em quem só confere se o nome exato já existe.
As três formas de colidência
Colidência não é uma categoria única. Ela se manifesta de três formas, e um pedido pode cair em qualquer uma delas (ou em mais de uma ao mesmo tempo).
Fonética. O som é o que decide. "Kavalo" e "Cavalo" se pronunciam igual. Trocar letra por som equivalente (C/K, S/Z, I/Y) não muda o que o ouvido registra, e o exame leva isso em conta.
Gráfica. A semelhança está na forma visual: traço, tipografia, composição de logotipo, mesmo quando o nome escrito é diferente. Duas marcas podem ter palavras distintas e ainda assim serem visualmente confundíveis pela disposição dos elementos.
Ideológica. A colidência mais contraintuitiva: duas palavras completamente diferentes, sem nenhuma semelhança sonora ou gráfica, mas que remetem à mesma ideia. "Leão" e "Lion" na mesma classe correm risco por carregarem o mesmo conceito, ainda que um esteja em português e outro em inglês.
Por que a busca simples não enxerga isso
Uma pesquisa pelo nome exato no sistema do INPI mostra só o que bate literalmente. Ela não varre variações fonéticas, não cruza sinônimos, não testa como o nome soa perto de outras marcas registradas na mesma classe. É por isso que alguém pode sair de uma busca de quinze minutos convencido de que está livre, e receber o indeferimento meses depois, quando a taxa já foi paga e não volta.
O que muda na prática
Colidência não é uma regra que se decora, é um padrão que se reconhece caso a caso: depende da classe, dos concorrentes já registrados nela e de como o nome se comporta fora do papel. Por isso comparar só a grafia exata é o erro mais comum de quem tenta economizar tempo ou dinheiro decidindo registrar sozinho ou com assessoria sem entender o que está em jogo. A colidência é a razão pela qual duas marcas "diferentes no papel" nunca são garantia de aprovação.
O laudo de viabilidade cruza sua marca contra mais de 2.000 registros analisados, testando semelhança fonética, gráfica e ideológica em cerca de 50 páginas de parecer.

