Uma fábrica de linhas de costura no interior de Santa Catarina vendia para ateliês da região havia doze anos com o mesmo nome no cone. Quando resolveu registrar a marca, o dono travou na primeira tela do INPI. A lista falava em fios, linhas, tecidos, roupas. Ele fazia linha de costura. Marcou tecido por dúvida, quase protocolou na classe errada, e a classe errada não protege nada do que você realmente vende.
O que a classe 23 protege
A classe 23 cobre uma coisa só, mas cobre bem: fios e linhas para uso têxtil. É o insumo que vira tecido, costura e bordado, não o produto final.
Na prática, entram aqui as famílias:
- Fios e linhas de costura, incluindo linhas para máquina e para costura à mão
- Fios para tricô e crochê, fios de lã, algodão, seda e sintéticos fiados
- Fios para tecelagem, para bordado e para cerzir
- Linhas metálicas para uso têxtil e fios elásticos para uso têxtil
- Fios de fibra de vidro, de borracha e de plástico, quando o uso é têxtil
O critério que amarra tudo é a expressão uso têxtil. O que define a classe 23 não é o material do fio, é a finalidade. Um fio existe para virar pano, roupa, bordado ou costura. Se o uso for outro, a classe muda, mesmo que o produto ainda pareça um fio.
Quem precisa da classe 23
Precisa da classe 23 quem fabrica ou coloca a própria marca em fio ou linha:
- Fabricantes de linha de costura e cones industriais
- Marcas de fios para tricô, crochê e artesanato (lã, algodão, novelos)
- Produtores de fios para tecelagem e para bordado
- Indústrias de fios sintéticos, elásticos ou metálicos destinados ao têxtil
- Marcas de aviamento que vendem linha como produto principal
Se o seu cliente compra o fio para fazer outra coisa com ele, tricotar, costurar, tecer, bordar, a classe 23 é a sua casa.
O erro que faz gente registrar no lugar errado
O tropeço clássico da classe 23 é confundir insumo com produto final. Fio não é tecido, e tecido não é roupa. Cada um mora numa classe.
O fio e a linha ficam na classe 23. O tecido e o material têxtil, por metro, ficam na classe 24. A roupa pronta, o calçado e o chapéu ficam na classe 25. São três degraus da mesma cadeia, e o INPI trata como três marcas separadas.
Uma confecção que compra fio só como matéria-prima e vende camiseta não registra na 23. Ela registra na 25, porque o produto dela é a roupa. Já a fábrica que vende o cone de linha para essa confecção é que precisa da 23.
O segundo erro é o de sempre: confundir fabricar com revender. Se você produz o fio, é classe 23. Se você tem uma loja de aviamentos que revende linhas de marcas variadas, o serviço de comércio é a classe 35. Fabricante que também mantém loja própria costuma registrar as duas, uma para o produto, outra para o varejo.
E há um limite silencioso: linha cirúrgica vai para a classe 10, e cordas e cabos para navegação ou construção vão para a classe 22. A palavra fio engana. O que decide é sempre o uso.
Quanto custa registrar na classe 23
O registro é por classe. Cada classe tem uma taxa oficial do INPI, e desde 20/09/2025 vale o pagamento unificado, que já cobre exame, certificado e os primeiros 10 anos de vigência.
A taxa é de R$ 440 com o desconto de 50% para MEI, ME, EPP e pessoa física, ou R$ 880 no valor cheio. O prazo médio de análise fica entre 8 e 14 meses. A marca vale por 10 anos e é renovável por períodos iguais.
Um aviso que economiza dinheiro: se o pedido for negado, a taxa não volta. Registrar na classe errada é pagar duas vezes, uma pela negativa e outra pelo pedido certo. Vale conferir também quanto custa registrar uma marca por completo antes de fechar o cálculo.
Antes do protocolo, o laudo
A classe 23 é estreita, e é justo aí que muita gente escorrega, marcando tecido ou roupa quando o produto é fio, ou pulando a classe 35 quando também revende. Antes de gastar a taxa que não volta, vale um laudo de viabilidade. Ele confirma se a classe 23 é mesmo a sua, aponta se você precisa de uma segunda classe e verifica se já existe marca parecida antes de você protocolar. É a diferença entre proteger o negócio e pagar para descobrir que protegeu a coisa errada.

